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Escrito por John MacArthur, Jr.   

O Silencio do Cordeiro de Deus

Ao passar por alguma tribulação ou por um período de sofrimento, a maioria dos crentes faz estas perguntas a Deus: "Por que isto aconteceu?" ou "Onde foi que errei para merecer isto?"

JESUS, O SOFREDOR INOCENTE
Ao passar por alguma tribulação ou por um período de sofrimento, a maioria dos crentes faz estas perguntas a Deus: "Por que isto aconteceu?" ou "Onde foi que errei para merecer isto?" Geralmente, tais perguntas são feitas no início de uma provação, sem que haja qualquer solução à vista. Tanto os que sofrem como os que procuram aconselhar os que sofrem, todos são rápidos demais em nomear o pecado como a causa padrão para as desgraças. Isto me faz lembrar da concepção errônea que os discípulos de Jesus tinham em relação ao homem que nascera cego: "Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?" Jesus imediatamente os corrigiu: "Nem ele pecou nem seus pais; mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus" (Jo 9.2,3). Da mesma forma, Elifaz, Bildade e Sofar estavam equivocados em sua presunçosa e errônea avaliação da situação difícil de seu amigo Jó (vide Jó 3-31). Jó não estava sofrendo por haver pecado (Jó 1.1-2.11).

Nosso Senhor Jesus Cristo, em seu próprio sofrimento e morte, é um inigualável exemplo da realidade de* que alguém pode estar completamente dentro da vontade de Deus, ser extremamente talentoso e usado por Deus no ministério, além de ser totalmente justo e obediente a Deus, mas ainda assim ser submetido a terríveis sofrimentos. Jesus foi julgado e condenado como criminoso, embora nada tivesse feito de errado. Ele era a última pessoa a merecer sofrimento e punição injustos, e, desta forma, dá-nos o exemplo de como devemos nos comportar ao sermos injustamente perseguidos.
A própria natureza e circunstâncias dos sofrimentos de Jesus demonstram ser absolutamente falsa a noção vigente em nossos dias de que os cristãos que sofrem, pecaram ou estão fora da vontade de Deus. Se Jesus, que era o perfeito e inocente Filho de Deus, sofreu tanto, como podem, então, os crentes que são tão imperfeitos esperar escapar dos vários tipos de sofrimento? A resposta é que não o podemos, como nos mostra l Pedro 2.20-23.
A teologia do não-sofrimento, se for levada ao seu extremo lógico, deve declarar que Jesus estava fora da vontade de Deus quando morreu na cruz. Esse tipo de pensamento é mais que uma lógica incorreta: é uma consumada heresia.

Examinemos mais de perto l Pedro 2.21, no que diz respeito ao significado de duas palavras gregas e no modo como, ao entendê-las, seremos ajudados em nossa relação a Jesus e ao sofrimento. A segunda parte do versículo diz: "Deixando-nos o exemplo, para que sigais as suas pisadas".
O vocábulo "exemplo" é a tradução da palavra grega hupogrammos que, literalmente, significa "escrever debaixo de". Traz a idéia de uma criança que aprende a escrever o alfabeto colocando um modelo sob uma folha de papel, e tracejando o contorno das letras do modelo. Do mesmo modo, Jesus é o nosso modelo a seguirmos tanto no que concerne ao sofrimento quanto à maneira de se lidar com este.
A palavra "pisadas" em grego é ichnos, e significa "contorno das pegadas" ou "rastros". Devemos seguir os rastros de Jesus, porque o caminho para a glória trilhado por Ele é o caminho da justiça, e o caminho da justiça num mundo injusto é também um caminho de sofrimento. Se queremos andar no caminho certo, devemos seguir as pisadas de Jesus.

Esta idéia é paralela à admoestação de Paulo: "E também todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições" (2 Tm 3.12). Nem todos os crentes sofrerão da mesma maneira ou na mesma intensidade, mas os que procuram andar no caminho da justiça que leva à glória, encontrarão tribulações, adversidades e sofrimentos.

JESUS, O SOFREDOR HUMILDE
Através da visão do profeta Isaías, l Pedro 2.22,23 proporciona-nos um exame mais minucioso da maneira como Jesus sofreu. O apóstolo Pedro cita parcialmente Isaías 53.9 na Septuaginta (o Antigo Testamento em grego) para descrever com maiores detalhes a reação geral de Jesus ao tratamento injusto. A primeira parte da citação de Pedro é, na verdade, uma paráfrase que junta a palavra de Isaías "injustiça" com a da Septuaginta "ilegalidade" para simplesmente dizer "pecado". O apóstolo, sob a inspiração do Espírito Santo, está apenas afirmando que ele sabia o que os tradutores e Isaías queriam dizer, isto é, que Jesus nunca pecou contra Deus ou violou os seus mandamentos: Ele "não cometeu pecado" (l Pé 2.22). Jesus reagiu às mais difíceis e injustas perseguições com perfeita dignidade e humilde compostura.

Para frisar sua afirmação sobre a impecabilidade de Jesus, Pedro citou a última frase de Isaías 53.9: "Nem na sua boca se achou engano" (l Pé 2.22). O primeiro e mais freqüente lugar onde o pecado se manifesta é na boca. O próprio Jesus já havia ensinado que o coração fala pela boca: "Mas o que sai da boca, procede do coração, e isso contamina o homem. Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias" (Mt 15.18,19, vide também Mt 12.34-37).

Em l Pedro 2.23, o apóstolo continua suas reflexões. Desta feita, baseia-se em Isaías 53.7 que, na verdade, diz: "Ele foi oprimido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e, como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a sua boca". Assim, sem deixar de haver uma certa ironia, tanto Pedro quanto Isaías comparam o Cristo Sofredor, o Bom Pastor, a uma ovelha. É comumente sabido que as ovelhas não estão entre as criaturas mais inteligentes ou auto-suficientes. Um dicionário, numa definição secundária, refere-se a uma pessoa chamada de ovelha como "aquela que é uma criatura indefesa e inocente, ou que estivesse pronta para ser pega para servir de alimento ou ser tosquiada".

Essa figura enfatiza o modelo que nosso Senhor desempenhou ao resistir o sofrimento. Ele revela sua humildade ao colocar-se à mercê de seus inimigos. Eles o injuriaram, provocaram-no, maltrataram-no, repetidamente, indo até o limite máximo de sua resistência, mas não conseguiram fazer com que Ele falasse de maneira pecaminosa. A afirmação de Pedro "Quando o injuriavam" (l Pedro 2.23) refere-se à natureza repetitiva dos maus-tratos sofridos por Jesus. O fato de o verbo no original estar no particípio, indicando ação repetitiva, serve para fortalecer nosso comentário anterior. Todos os relatos nos Evangelhos sobre os sofrimentos de Jesus frisam a silenciosa humildade com a qual Ele recebia tantos maus-tratos verbais e físicos (vide Mt 26.57-63; Mc 15.3-5; Lc 23.9; Jo 19.9). A grande maioria de nós pode se identificar muito mais facilmente com o apóstolo Paulo. Note como ele reagiu quando Ananias, o sumo sacerdote, mandou que um soldado o esbofeteasse.

Então Paulo lhe disse: Deus te ferirá, parede branqueada; tu estás aqui assentado para julgar-me conforme a lei, e contra a lei me mandas ferir? E os que ali estavam disseram: Injurias o sumo sacerdote de Deus? E Paulo disse: Não sabia, irmãos, que era o sumo sacerdote; porque está escrito: Não dirás mal do príncipe do teu povo (At 23.3-5).

Contrário à nossa imagem de Paulo apresentada no capítulo 3, como um exemplo a ser seguido em tempos de aflição, eis aqui um episódio no qual Paulo falhou. Nesta ocasião em particular, a carne pecaminosa do apóstolo levou a melhor, mas isto nunca ocorrera com Jesus. Ele é o nosso modelo perfeito no modo como devemos controlar a língua em meio às perseguições ou aos sofrimentos injustos e de como suportá-los com paciência por causa da alegria que está para vir (Hb 12.2).

A humildade silenciosa de Jesus está revelada em outra citação que Pedro faz de Isaías 53: "Não injuriava, e quando padecia não ameaçava" (l Pé 2.23). Em face de uma quantidade inacreditável de intensa crueldade física e verbal, e o assassínio da própria virtude, tudo isso injustificado, Jesus não revidou. Já que Ele é Deus, podia manter pleno controle sobre seus sentimentos e poderes. O Senhor poderia ter destruído todos os seus atormentadores e, instantaneamente, mandá-los para o inferno. Porém, uma vez mais, vemos Jesus dando-nos o exemplo perfeito de como devemos nos comportar em tempos de crise e tribulação injustas.

O exemplo de Jesus  de não dizer nada e de não responder na mesma moeda quando submetido a maustratos parece ser impossível de seguir. Mas Pedro mostra-nos como Jesus foi capaz de atingir tão alto padrão: Ele "entregava-se àquele que julga justamente" (l Pé 2.23). Foi assim que Jesus encontrou forças para resistir aos sofrimentos, e é assim que nós também devemos agir.

Fonte: Livro - O Poder do Sofrimento

 
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