|
“O poder não corrompe o homem; mas os tolos, quando alcançam uma posição, corrompem o poder.” (Bernard Shaw) Por muito tempo ouve-se a expressão: "as pessoas passam, as instituições ficam". Esta frase tornou-se refrão “useiro e veseiro” quando no quadro de uma instituição, uma pessoa precisa ser "sacrificada". Uma cuidadosa análise indica que precisamos refletir sobre os pressupostos que lastreiam uma afirmação dessa natureza.
Se partirmos do ponto de vista de uma linha do tempo, de fato as pessoas estão passando e as instituições estão permanecendo. Pelo menos até que este mundo acabe, considerando-se apenas o aspecto físico da existência humana. Ilustremos com o paradoxo apresentado a Jesus sobre o sábado: Para que existia o sábado? Ele não se preocupava apenas em praticar cegamente as determinações farisaicas sobre o sábado, mas em conhecer a natureza ou razão de ser do sábado, relacionando-o ao valor do ser humano. Então, sua resposta foi: "o sábado foi feito por causa do homem e não o homem por causa do sábado".
Seguindo esse mesmo raciocínio, devemos sempre perguntar: Para que existe uma instituição? Ela existe para as pessoas ou as pessoas existem para ela? Ela deve existir em função de algum serviço a ser prestado ao ser humano, ou o ser humano deve existir em função dela? Por exemplo: uma escola, uma associação ou mesmo um governo existem em função das pessoas ou as pessoas é que devem existir em função dessas instituições? Alguém talvez respondesse de duas maneiras: Enquanto aluno, a instituição escola deve existir em função deste; enquanto funcionário, a escola deve a este a sua razão de existir, pelo menos em termos operacionais. Se um funcionário deixa de cumprir com excelência e transparência seu trabalho, seja qual for seu nível de atuação, não estará contribuindo com a instituição escola, no cumprimento da sua principal razão de ser. Afinal, a ineficiência gera turbulência funcional.
Olhando mais sobre a importância que o ser humano tem em sua inserção nas instituições, descortinaremos outro lado da questão. Por exemplo: Se a nossa perspectiva cronológica transcender o tempo (kronos), isto é, o tempo mensurável, fazendo uma conexão da história existencial com o tempo (kairós) de Deus, isto é, com a história transcendental de Deus, a linha do tempo que teremos transcenderá a vivência material, ultrapassando o término da atual história humana.
Assim, as instituições deverão existir em função das pessoas e não o inverso, à semelhança do que Jesus ensinou sobre o sábado. Mesmo trabalhando numa instituição, ela existe para as pessoas, em função de ser viabilizadora da ação humana, no cumprimento de uma missão compatível com a razão de ser da instituição. Assim, uma escola, uma associação, um governo existem em função das pessoas às quais servem, mas também em função de seus funcionários e diretores, conquanto seja ela um meio para que esses agentes operacionais exerçam seu papel em benefício dos outros.
Considerando esse ângulo, não podemos justificar a ineficiência, o comodismo, o uso da instituição e seus recursos para benefícios ou vantagens pessoais. Se isso ocorrer, esgotar-se-ão os recursos, meios e a credibilidade que uma instituição deve ter, para que sua missão seja cabalmente cumprida. Assim, o indivíduo é o agente responsável perante a comunidade por conduzir a instituição nos caminhos do cumprimento do dever, prestando contas dos seus atos.
Essa visão resgata o ser humano como humano, e não como mero objeto de trabalho ou como mão de obra útil. Cada pessoa passa a ser considerada em sua individualidade, possuidora de características próprias (o famoso conceito de microcosmo dos antigos filósofos), de uma criatividade singular. Dessa forma, uma instituição em vez de precisar de recursos humanos, precisa de humanos como recursos. Ao mesmo tempo, aprende-se que ninguém é insubstituível, pois ao deixar uma função outra pessoa poderá ocupar o lugar. Ninguém é substituível, pois cada um de nós é rico em singularidade de detalhes. Há tempos bons e tempos ruins nas instituições, sejam quais forem elas. As pessoas não são meros registros numéricos num departamento pessoal, ou meros ornamentos que ocupam mesas e cadeiras no trabalho. Elas é que enriquecem a vida de uma instituição. Às vezes, também empobrecem. Mas neste caso, estarão prestando um "desserviço" à comunidade. Precisamos considerar os membros de uma instituição não apenas na área de despesas do balanço contábil, mas na área patrimonial. Aliás, o principal patrimônio de qualquer instituição.
A administração contemporânea está redescobrindo o ser humano como a mais rica contribuição para a comunidade. Bill Gates escreveu um artigo, enfatizando o valor da pessoa como um potencial a ser cultivado e desenvolvido. Nessa visão, os membros de uma instituição não podem ser meros consumidores da realidade, usuários da vida, mas precisam ser capacitados, treinados e considerados como participantes de um todo. Cada um deve ser valorizado singularmente. Pessoa realizada e motivada certamente cumpre bem o seu papel institucional e social. As instituições certamente passarão, mas as pessoas, essas sim, permanecerão atemporalmente!
Leia, participe, opine escrevendo para este colunista:
Este endereço de e-mail está sendo protegido de spam, você precisa de Javascript habilitado para vê-lo
Boston, Setembro 29, 2008 Errata: No artigo anterior o título correto é: Mais Fratria pela Pátria e não – Mais Frataria pela Pátria.
Jota Moura Rocha, maranhense, casado, convertido a Cristo em fevereiro 1963, ministro do Evangelho desde 1970, doutor em Teologia, advogado, filósofo, autor de várias obras literárias, presidente da Rede de Igrejas CB’Shalom Internacional e do Ministério Basileia Apostolic Ministries, Inc., apóstolo membro da ICA-International Coalition of Apostles, presidida pelo Dr. Peter Wagner. Reside em Boston, MA – EUA, onde pastoreia com sua esposa, Rev. Dr. Regina Pinto Moura, a Shalom International Baptist Community of Boston. |