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Escrito por Ap. Jota Moura   
Cultura e Fé

Do ponto de vista cristão, há três atitudes gerais, concernentes à cultura, que podem ser salientadas, a saber: (1) Cristo contra a cultura; (2) Cristo na cultura; e (3) Cristo acima da cultura. De conformidade com o famoso livro de Richard Neibuhr, Christ and Culture, isso sumaria a questão. Essas atitudes têm sido ilustradas de forma mais elaborada nos pontos a seguir, nesse nosso pequeno ensaio sobre a relação da Cultura com a Fé Cristã.

 

1. DEFINIÇÕES DE CULTURA

1) A palavra cultura vem do latim colere, «cultivar» - Portanto, a cultura é um cultivo, sem importar os meios empregados para tanto.O vocábulo não entrou na linguagem senão já no século XVIII, embora o uso possa ser percebido ao longo da história, porém, expresso de muitas formas diferentes.

2) Cultura é um empreendimento coletivo - segundo o qual os seres humanos conseguem estabelecer um estilo de vida distinto, com base em valores comuns.

3) Cultura é aquele todo complexo - que inclui conhecimen­tos, crenças, artes, princípios morais, leis, costumes e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelos seres humanos, como membros da sociedade.. (E.B. Tylor).

4) Cultura é a totalidade da invenção - e da realização humana, incluindo todos os princípios, agências e técnicas de controle que os seres humanos têm adquirido sobre a natureza física e o comportamento humano, bem como todas as experiências pessoais e sociais que eles têm acumulado, intercambiado e transmitido, por meio de instrumentos e símbolos.

5) Cultura são todas as expressões criativas - dos seres humanos, em todos os campos dos empreendimentos coletivos da humanidade.

6) Cultura em sentido limitado - é a expressão que os seres humanos têm conseguido nas artes liberais.

2. CULTURA SEGUNDO A FILOSOFIA

1) Platão e Aristóteles - Na academia, eles estabeleceram os meios da produção e propagação da cultura, mediante o aprendizado formal.

2) A escola do cinismo - considerava a cultura humana como algo degenerado, procurando voltar as mentes dos seres humanos para a simplicidade da natureza.

3) No estoicismo - o ideal de um mundo culto consistia na idéia de que o individuo é cidadão do universo, e não apenas de alguma cidade-estado.

4) A cultura grega - disseminou-se pelo mundo inteiro, na época de Alexandre, o Grande. Continuou muito influente no mundo romano, incluindo aspectos como a filosofia, as artes e várias ciências. Os primeiros teólogos-filósofos cristãos, como Justino, Agostinho e Boethius  promoveram os ideais gregos dentro da cultura cristã em desenvolvi­mento.

5) Emanuel Kant - em sua obra Critica do Julgamento, promoveu certa idéia da cultura que girava em torno do gênio e do refinamento das sensibilidades estéticas.

6) Saint Simon - falava sobre épocas criticas e épocas orgânicas, como meios transformadores da cultura.

7) Fichte - considerava que a principal realização possível da cultura, seria um mundo dominado pela ética, devidamente organizado e constituído.

8) Hegel - ao falar sobre o Espírito Absoluto, que seria o poder criativo e orientador de todas as coisas e acontecimentos, fazia da cultura um cultivo desse Espírito.

9) Schlegel -  supunha que a cultura definitiva poderá ser alcançada mediante a fusão da ciência e da vida diária.

10) Splengler - distinguia entre cultura e civilização. A primeira indicaria as possibilidades vitais de uma sociedade e as realizações ou concretizações dessas possibilidades. A segunda aludiria às formas e pretensões externas da sociedade.

11) Matthew Arnold - pensava que a cultura conduz à perfeição. A cultura conquistaria a barbárie e o espírito combativo dos seres humanos.

12) Os sociólogos e os filósofos - não concordam se há ou não alguma diferença entre cultura e civilização.

13) A dialética materialista - supõe que a cultura é determinada por considerações materiais, especial­mente pelas condições econômicas em torno das quais as classes da sociedade se entrechocam.

14) Huizinga - pensava que a cultura perfeita é resultado da devida harmonia entre os valores materiais e os valores espirituais, e que o ser humano se acha no vórtice de um drama, no qual são cultivados os valores humanos. Ele se referia ao ser humano como o homo ludens, «o homem que joga». Alguns pensado­res metafísicos hindus opinam nesses termos, considerando que a inquirição do ser humano pela espiritualidade é uma espécie de gigantesco drama cósmico, com muita diversão de intermeio, de tal modo que a comédia é o resultado final. 

3. PONTOS DE VISTA CRISTÃOS DA CULTURA

1) O cristianismo concebe um mundo em dois andares - o mais elevado, de cunho espiritual; e o mais baixo, de cunho material. Embora o nível mais elevado seja o alvo, e também o nível mais importante, a ênfase sobre os deveres cristãos para com o próximo, demonstra que o ponto de vista cristão precisa incluir a idéia que a cultura humana é importante em si mesma. Os seres humanos estão encarre­gados de missões mais elevadas ou mais modestas. Eles buscam o bem da alma (nível mais elevado), mas também o desenvolvimento das instituições terrenas (nível mais modesto). Com freqüência, esses alvos são mutuamente dependentes, como é o caso de muitos seres humanos que servem ao próximo e participam das realizações humanas, das instituições, etc., embora como parte do ideal espiritual. Algumas pessoas, no presente, têm apenas uma missão mais modesta, como os cientistas. Eles adiam para outra ocasião os interesses da alma. Porém, se servirem bem em seu papel, também estarão servindo a Deus, embora indiretamente. Finalmente, porém, poderão envere­dar pela inquirição da alma. A humanidade como um todo, e até mesmo as nações, individualmente falando, têm missões a cumprir neste mundo. Não obstante, finalmente, todos os seres humanos haverão de envolver-se nos interesses. do outro mundo, embora alguns só o façam  “após a morte física”. Para alguns, isso significa que o farão tarde demais; para outros, parece haver uma segunda chance, pois o destino da alma não parece ser fixado somente nesta vida(ainda que a Bíblia afirme o contrário). Em todas as atividades humanas dignas, há uma certa cultura envolvida, um cultivo que está em progressão.

2) Em sentido bem amplo - a própria criação é cultivo de Deus, cujo principal propósito é a salvação dos cidadãos do mundo (Jo 3.16), mediante a realização do Filho de Deus (Cl 1.16). Por conseguinte, a terra torna-se o campo de provas desse elevadíssimo propósito divino.

3) Em sentido mais estrito - a Igreja cristã tem-se saído bem na promoção da civilização e da cultura humanas. Durante a Idade Média, a Igreja Católica foi a encarnação mesma da cultura, servindo de meio através do qual a instrução nas letras e o desenvolvimento das artes se processavam. Idealmen­te, a Igreja cristã deveria injetar na cultura humana os princípios cristãos que promovem as virtudes da honestidade, da harmonia e do amor. A Igreja cristã também deveria alertar os seres humanos acerca de um caminho mais elevado e civilizado, a caminhada da alma como elemento orientador de qualquer cultura humana.

4) Existe aquele País Celestial - do qual este mundo é apenas uma sombra e uma pobre imitação, um conceito antecipado por Platão e utilizado pelo escritor da epístola aos Hebreus (11.16).

5) Os dualistas cristãos - supõem que o ser humano está vivendo em duas dimensões ao mesmo tempo: a física e a espiritual. Porém, os mais radicais não vêem qualquer utilidade na dimensão física, e convidam os cristãos a se desligarem de qualquer participação significativa nessa dimensão. Outros cristãos, entre­tanto, permitem tal participação, mas supõem que isso serve somente para promover melhor os interesses da alma, nada vendo de significativo naquilo que acontece no mundo físico, à parte dos interesses espirituais.

6) Os conversionistas cristãos - quando radicais, supõem que o único uso que os crentes podem fazer deste mundo, é serem missionários que buscam a conversão da sociedade. Porém, eles não vêem qualquer bem na própria sociedade, e não recomen­dam a ninguém a participação ativa na sociedade, exceto como um meio de promover a causa da evangelização.

7) Os anticulturistas cristãos - como Tertuliano, vêem apenas o mal na cultura humana, denunciando qualquer participação dos crentes na política, nas artes e na filosofia, como atividades pagãs e produtos indesejáveis dos esforços de seres humanos perdidos.

8) Os incorporacionistas cristãos - têm por intuito, misturar-se em todas as atividades seculares e culturais, o que diminui seu caráter distintivo como cristãos.

9) Os sintetistas cristãos - como Tomás de Aquino, supõem que a Igreja cristã deveria mostrar-se ativa na promoção de todas as variedades de cultura, como parte de suas funções, levando assim a Igreja a ocupar-se em maior número de coisas, das quais ela tem tempo e energia para desincumbir-se a contento.

10) Os nacionalistas cristãos - mostram-se orgulhosos das realizações culturais de suas nações particulares,. supondo que parte do trabalho missionário cristão' consiste em impor a outros povos os próprios padrões culturais dos missionários, e não apenas os valores religiosos. Nisso revela-se uma espécie de identifica­ção 1nconsciente entre o cristianismo e a cultura ocidental, em suas realizações.

11) Os absorvedores cristãos - dizem-se incapazes de distinguir entre a cidade de Babel e a cidade de Sião, absorvendo-se assim nos empreendimentos seculares e humanos que são próprios dos filhos de Babel, e não dos filhos de Sião. Esses olvidam-se que há uma cidade eterna, que tem alicerces perenes (Hb 11.10).

12) Os isolacionistas cristãos - reconhecem a necessi­dade de atividades culturais, mas separam-se formando comunidades exclusivistas, afastando-se assim de todas as comunidades pagãs, o mais possível. Eles possuem suas próprias comunidades e escolas, e só se mesclam com o mundo exterior nas questões comerciais, embora somente até onde não ponham em risco a própria sobrevivência. (Fonte: Enciclopédia de Bíblia, Teologia e filosofia. R.N. Champlin, Vol. 1, Hagnos,  2001, SP) 

 

 

 

 

 
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